Lições de uma crise econômica | Phi Investimentos

Lições de uma crise econômica

Lições de uma crise econômica

Quais as principais lições da crise econômica para quem analisa atentamente os últimos dez anos? Entenda a seguir na visão de Luiz Carlos Mendonça de Barros. Engenheiro e economista, ele é diretor-estrategista da Quest Investimentos, parceira da TORO Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. A coluna a seguir foi publicada no jornal Valor Econômico.

Lições de uma crise econômica

Aprendi ao longo de minha vida de analista da economia a incorporar ao meu pensamento os ensinamentos que resistem ao tempo e às mudanças da sociedade. Assim, procuro sempre fugir das tentações que os modismos mais superficiais, sempre presentes na imprensa, trazem. Só há uma forma de ser vencedor neste exercício profissional: separar corretamente o fundamental do acessório, nas idas e vindas dos mercados. Neste sentido, o acompanhamento da evolução das principais economias, nos últimos dez anos, traz lições fundamentais. Por ser um período longo e que abrange três ciclos conjunturais quase que completos, as lições dele derivadas tem uma força muito particular.

Em uma primeira fase – entre 2004 e 2007 – as economias de mercado viveram um período de boom que parecia consolidar o pensamento liberal mais ortodoxo como o paradigma vencedor. Foi um período de negação do arcabouço regulatório, principalmente do mercado financeiro, herdado de outro momento de crise grave entre 1929 e 1939. Voltamos à catilinária da racionalidade dos mercados. Quem quiser entrar nas entranhas deste período aconselho o livro “Too Big To Fail”, ou o DVD com o mesmo nome.

A crise de 2008 serviu para destruir a utopia liberal do funcionamento dos mercados. Em resposta aos efeitos da crise, governos de vários países foram obrigados a interferir com vigor na economia privada, utilizando-se de instrumentos fiscais, monetários e regulatórios. Aliás, como sugeria Keynes em seus escritos.

Talvez 2016 seja o início de um período de crescimento global em ambiente regulatório mais sensato
 

Os resultados positivos desta nova postura levaram a uma recuperação cíclica que parece ser duradoura e nos afastou do colapso econômico em escala mundial. Vivemos o retorno à quase normalidade do metabolismo inerente às economias de mercado sadias, em que liberdade e controles convivem em harmonia construtiva.

Mesmo a Europa, com sua institucionalidade particular e castradora, começa a dar sinais de recuperação sob o peso das intervenções de seu Banco Central. Finalmente o BCE está conseguindo desvalorizar o euro em relação ao dólar americano – fala-se já na volta da paridade 1 por 1 – e usar a força da maior economia do mundo para criar um estímulo adicional à região, via aumento das exportações dos países do euro.

Neste cenário gostaria de propor ao leitor um exercício analítico: dos economistas que deixaram sua marca pessoal no estudo da economia nos últimos cem anos, qual foi o que mais contribuiu para o entendimento do que vivemos neste período conturbado de nossa história recente? A resposta para mim é muito clara, e fácil de se chegar à ela. Foram as ideias de John Maynard Keynes, e de alguns de seus seguidores depois de sua morte, que foram usadas por governos e Bancos Centrais para enfrentar o pânico dos supostos agentes racionais.

Uma das principais vitórias do pensamento de Keynes vem da superioridade de sua leitura teórica sobre o chamado agente econômico real nas sociedades modernas. Keynes sempre questionou sua natureza racional, seja êle o empresário que investe, o banqueiro que empresta, o especulador que especula ou um simples consumidor. Para ele o agente econômico tem qualidades e defeitos inerentes ao homem e que a imagem que frequentava os trabalhos dos economistas clássicos – e também os neo clássicos – era apenas uma ficção criada pela moral da época.

Foi mais adiante que disse que, por ser um homem real e não imaginário, o agente econômico é sujeito – ao nível individual e coletivo – a distorções perigosas de comportamento. Keynes citava principalmente duas: ambição nos momento de boom e o medo quando a crise se instala. Nestes momentos, dizia ele, a presença do governo é crucial para limitar os estragos gerados pelo pânico que se instala nos mercados e criar um caminho de volta à normalidade.

Alguém duvida de que foi isto que ocorreu quando em 2008 as autoridades americanas, seguindo seus princípios e convicções, deixaram o Banco Lehman Brothers ir à falência? O livro – e o dvd – citados acima descrevem com muita precisão a fase da ambição em ficar rico que se instalou em Wall Street e o pânico que se seguiu.

Estamos próximos do ato final da desmontagem de toda esta parafernália de medidas heterodoxas. A política fiscal já foi normalizada, com o déficit americano voltando a níveis de velocidade de cruzeiro. As empresas estatizadas voltaram para o setor privado e um novo arcabouço regulatório amadurece a cada dia que passa.

O Federal Reserve já finalizou seu programa de expansão agressiva da liquidez nos mercados financeiros e administra com cautela a contração monetária via resgate dos títulos federais em sua carteira. O próximo passo será a normalização dos juros de curto prazo via aumento discreto e também cauteloso das taxas de juros de seus instrumentos de intervenção no mercado monetário.

Mesmo a Europa, que ficou para trás na implantação das medidas heterodoxas, começa a dar sinais de recuperação com alguns países mais afetados pela crise – Irlanda e Espanha – caminhando à frente de economias mais maduras, como França e Itália. A força atual do dólar americano, fruto da recuperação mais vigorosa da maior economia do mundo, ajuda países mais problemáticos, como o Japão e algumas economias europeias, neste processo de recuperação.

Talvez 2016 seja o início de um período de crescimento global em ambiente regulatório mais sensato, deixando os riscos de uma nova febre de desregulação para gerações futuras.

Fonte: Jornal Valor Econômico

Related posts

InvestSim: 1º Simpósio de investimentos debate as principais oportunidades em investimentos no Brasil

Realizado nesta segunda-feira, 03, pela PHI Investimentos em parceria da Guide Investimentos, o  I° Simpósio de Investimentos do Paraná – INVESTSIM reuniu em um único dia, 500 participantes e 15 palestrantes de destaque no mercado financeiro nacional que juntos são responsáveis pela gestão de mais de R$100 bilhões. O...

Read More

Qual é o valor mínimo para investir?

Um dos maiores mitos sobre investimentos é a ideia de que é necessário ter uma grande quantia de dinheiro sobrando para começar a investir. Porém, é possível sair da poupança e aprofundar-se no mundo dos investimentos com muito pouco. Uma das principais dúvidas de investidores iniciantes é quanto ao valor...

Read More

Give a Reply