O fim da hegemonia do PT e a nova agenda | Phi Investimentos

O fim da hegemonia do PT e a nova agenda

O fim da hegemonia do PT e a nova agenda

A história mostra que o ambiente político que vive o Brasil tende a abrir um momento de vazio no poder. Quais as perspectivas para a política econômica brasileira? Confira a seguir nesta coluna de Luiz Carlos Mendonça de Barros para o Valor Econômico. Engenheiro e economista, Mendonça é diretor-estrategista da Quest Investimentos, parceira da TORO Investimentos. Foi também presidente do BNDES e ministro das Comunicações.


O fim da hegemonia do PT e a nova agenda

A hegemonia política do PT, principalmente nos anos de ouro do crescimento econômico, entre 2007 e 2013, permitiu a sofisticação do metabolismo político chamado de presidencialismo de coalizão. A extraordinária aprovação do governo Lula – e da presidente Dilma em seus dois primeiros anos de mandato – em função do bem estar da grande maioria da população, fez com que o poder do governo fosse exercido de maneira autocrática pelo presidente da República e pela direção do PT, cabendo à base política que o sustentava sempre um papel secundário.

Hoje sabemos que, além da popularidade do governo do PT, outros mecanismos foram usados para dar funcionalidade a este sistema, com o dinheiro da corrupção dividido entre o PT e os partidos principais da base.

A eficiência dessa máquina política parlamentar começou a se reduzir na medida em que a situação econômica, em 2010, mudava de sinal, sem que Lula e o núcleo dirigente petista disto se apercebessem. Os erros da política econômica da presidente Dilma agravaram esse quadro e aceleraram o fim da era hegemônica do PT. As manifestações de rua, em junho de 2013, não surpreenderam o analista mais atento, pois eram uma possibilidade em função dos resultados adversos da nova matriz macroeconômica à sua época. Entretanto, o desemprego ainda muito baixo e um crescimento real dos salários – embora menos intenso – ainda presente nas negociações com os sindicatos mantinham a impressão de que nada havia mudado para o cidadão comum.

A sociedade brasileira mudou muita na sua visão do Estado. É um movimento claro na direção da direita

Mas as dificuldades da presidente nas eleições de 2014 mostraram claramente que este período começava a se eclipsar. O aparecimento da candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, apesar de todo o esforço de Lula para cooptá-lo, mostrava que algumas lideranças políticas já visualizavam estes novos tempos. Depois de sua morte, o crescimento impressionante de Marina Silva nas pesquisas eleitorais foi outro momento em que os analistas puderam perceber, também, estes sinais de fim de ciclo.

Reeleita Dilma, a escolha de um ministro da Fazenda com formação acadêmica e profissional bastante ortodoxa, se de um lado correta para estabilizar a economia, foi vista pela opinião pública como uma prova de que na campanha eleitoral ela tinha escondido dos eleitores suas verdadeiras intenções. Com a inflação chegando a mais de 8% e o desemprego já sendo um fato concreto, não havia como esconder da população as pedaladas de marketing de João Santana. Como a economia brasileira seguirá agora a trajetória “jota”, isto é, vai piorar muito antes de dar algum sinal de recuperação, esta situação de baixíssimo apoio popular ao governo será agravada e se manterá até pelo menos as eleições municipais de 2016.

A história nos ensina que o fim de um longo período hegemônico, como o que vivemos, abre um vazio imenso de poder. No Brasil de agora, esta transição terá cores bem mais fortes em função a fragilidade ideológica e programática de nosso sistema partidário. Além disto, a sociedade brasileira mudou muito nos últimos 12 anos na sua visão do Estado e das políticas sociais. É um movimento claro na direção da direita, como identificado por vários analistas. Hoje não só o PT – e seu modelo político e econômico – são rejeitados pela grande maioria (mais de dois terços da população) mas também há uma demanda – ainda que difusa – para mudanças mais ambiciosas e estruturais. A questão central com que se defrontará a sociedade nesta busca pelo novo é a falta de uma agenda alternativa clara e transparente e lideranças capazes de conduzir este processo.

Por esta razão parece-me que a questão do impeachment não deve ser colocada agora. Antes de uma eventual mudança de poder político vamos precisar de tempo para que esta perspectiva atraia novas forças e uma agenda de reformas seja construída. Este período de amadurecimento de um novo plano de voo é extremamente importante, principalmente no campo da legislação partidária e eleitoral e da formação de novas alianças. Já temos sinais disto com a aprovação recente, pelo Senado, das eleições distritais para os grandes municípios brasileiros, depois de anos no limbo das discussões parlamentares. O fruto está agora maduro e poderá ser colhido.

Neste sentido uma transição mais lenta – sem a ruptura que um eventual impeachment criará – poderá ocorrer de forma mais suave e dentro dos marcos do sistema político atual. Lições dos últimos anos de poder petista farão com que alguns ajustes no sistema ocorram naturalmente, como, por exemplo, a limitação da fragmentação dos partidos políticos e a utilização de legendas de aluguel para facilitar a cooptação de apoio parlamentar.

No campo da economia esta transição será diferente pois o debate – que nunca deixou de existir no Brasil – permite a construção mais rápida de soluções alternativas. Aqui também a herança dos anos recentes servirá como ponto de apoio para as reformas necessárias na medida em que a sociedade tem hoje conhecimento das terríveis consequências do estatismo e do descontrole fiscal sob a desculpa de ajudar os pobres e desamparados. Cito dois exemplos que me parecem paradigmáticos: os processos no TCU contra as pedaladas fiscais – e a responsabilização legal de seus executores – e os resultados dramáticos da reclassificação das contas da Petrobras.

Não podemos jogar fora este momento tão rico para a sociedade brasileira por erros táticos de administração da transição que estamos vivendo.

Fonte: Valor Econômico

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